segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Cuidado, um texto pode iluminar outro: do mais difícil para o mais fácil

 Jorge Luís Borges tinha muito humor - e isso é visível no seu conto maior «Pierre Menard, autor do Quixote».

«Tafas, um pincel do nosso tempo» é um pequeno texto também 'em forma de artigo' escrito por Borges em colaboração (e galhofa) com o seu amigo Bioy Casares.  Lembram-me a dupla que faz a série South Park, Trey Park e Matt Stone: um par de diabretes. Se repararmos bem, o texto é paradoxal - e a premissa absurda.
E é uma boa introdução ao outro conto, mais difícil, que por engano (ou não) vos dei a ler antes. 





sexta-feira, 23 de outubro de 2020

“Comunidade” de Luiz Pacheco

(comentários e anotações)


Luiz Pacheco é a verdade de que tentamos escapar, é as ‘entranhas da besta’ que consideramos como a ruína, como o fim, como o marginal e menosprezado.

Pois é nessa ruína e fim que parece existir a verdadeira vida, que se sente o espírito livre de Pacheco, que nos retrata, de forma magnífica e única, a verdadeira essência de existir.

Se se poderia, por momentos, considerar que Pacheco é uma ‘não- existência’ literária, devido à grande marginalização e desconhecimento de que é alvo, essencialmente por camadas mais jovens da população portuguesa, “Comunidade” revela-nos cada respiração, cada batimento cardíaco, cada pulsação, que nos mostra que Luiz Pacheco existe. Existe e resiste, existe e prevalece, imortalizando-se na sua escrita, na sua vida, no seu legado.

A frontalidade que escorre da sua experiência pessoal, o tacto, o cheiro, o sabor e todos os sentidos que são despertados ao longo desta leitura, tornam autêntica a sua escrita. Pacheco escreve como sente, como vê, como cheira. Somos testemunhos e espectadores desta autenticidade, num texto cru e visceral até, que se ajusta perfeitamente a quem Luiz Pacheco era, daí a sua honestidade (que pessoalmente tanto preza).

É comum a discussão sobre a forma como Pacheco criou um novo estilo literário, o Neo-Abjecionismo, tornando-se uma espécie de não idealista à sua maneira. Concordo parcialmente com este registo em que tentam colocá-lo, se bem que me parece que o mesmo não fosse gostar de ser colocado em qualquer corrente que na sua escrita se possa identificar, pois Pacheco é, por si só, Luiz Pacheco, não precisando de um rótulo que o coloque numa prateleira de biblioteca com categorização para que os leitores o encontrem melhor.

“Comunidade” é a casa de Luiz Pacheco, o local onde reside o corpo, as ideias e a alma deste ‘escritor maldito’, longe de gerar consensos.

O que se nota nesta obra, e um pouco por toda a vida do autor, é a sua forma de estar sempre à beira da destruição, mas tendo sempre a vontade e a garra de viver, que sempre o fez ressuscitar.

Pacheco é um espirito livre que não pode ser censurado, nesta figura de ‘libertinário’ (libertino e libertário) que nos liberta das conceções comuns da literatura, das amarras do bonitinho da escrita, mostrando-nos a ruína e a miséria de uma vida na verdadeira Lisboa, naquela que não se mostra a turistas.

É isto que o faz ser, sem embelezamentos necessários, Luiz Pacheco.

 

Carolina Chora Alves 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Um poema muito simples

 


Sumário da aula de hoje (21 outubro)

 1. Para ler em casa: «Pierre Menard, autor do Quixote», de Jorge Luís Borges. Aqui

2. Falámos hoje de Babel e Sião, o topo central ao poema de Camões que dá título mao conto de Jorge de Sena. Eis aqui a ligação para o poema de Camões «Sôbolos rios que vão» e aqui o poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos referido na aula: 

(...) 

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje). 

(...)

Repararão também que há um 'Zion' no filme Matrix, um coito onde os humanos podem respirar da perseguição das máquinas.

3. «Eu» sou desvio em relação ao centro. Mas, ao desviar-me do centro imaginário, ao afastar-me, ganho voz.  

4. A incompreensão do outro

4.1. O caso da boneca Barbie e das duas filhas adoráveis.

4.2. O caso dos senadores Pacheco Pereira, António Barreto e Miguel Sousa Tavares no programa da Sic Terça à Noite (circa 1994). Fernando Ka: «Na minha terra há um provérbio: Quem sabe se a sopa está boa não é quem a faz, é quem a come.» 

4.2.a. Eles eram excelentes cozinheiros mas...  

5. Viagens no tempo e no espaço

5.1. Como Tarkovski filmou o futuro? Deslocando-se no espaço, em vez do tempo. 

Também a nossa fala todos os dias concretiza viagens no tempo. 

5.2. A desumanização: da «minha-mulher» (uma brincadeira na aula) à Metamorfose  (1915) de Kafka. 

5.3. Cortar o cordão ou religá-lo? 

5.4. Luiz Pacheco toma a sua experiência como exemplar. O eu é, como em muita poesia lírica, sacrificial. Mais até que em muita poesia lírica, porque no poema o eu não tem de ser o poeta  tal como num romance o eu-narrador não é o eu-autor. Mas Pacheco reclama uma co-incidência. Não há personagens (a começar pela voz que diz eu), há pessoas.  

5.5. Jorge de Sena busca em Camões a chave para os seus próprios problemas criativos. 

 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Novas datas da frequência

Dado que a estrutura presencial altera semanalmente, aqui vão as novas datas para a frequência.  

 4ª 9/12 (turma presencial das segundas). 2ª 14/12 (turma das quartas.)

5 Livros Para o Cânone- António Castro

    Apesar de ser difícil escolher, diria que as seguintes obras foram as que, de alguma maneira, me marcaram ou me ensinaram algo sobre a vida e sobre mim. Escolhi obras que já li mais que uma vez ou que tenha lido há tempo suficiente para se sedimentarem no meu cânone. São essas: Uma Faca Nos Dentes, António José Forte; O Perfume, Patrick Süskind; O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde; Nobilíssima Visão, Mário Cesariny e A Metamorfose, Frank Kafka.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

a mais engraçada definição de poesia



 Aqui.


O universo Kukai. RTP 2, 4ª 14, 23h. Com o pintor Senjo.


Trabalho de casa para segunda 19: um conto de Jorge de Sena

 Este conto sobre os últimos dias criativos (um prazo a expirar) de Luís de Camões é muito interessante. Para além de ser bom, de um grande escritor português, encena a génese criativa.  

  • Como se faz um poema? 
  • Como terá Camões escrito aquilo? 
  • Quando expiram as nossas forças criativas? 
  • O que as alimenta?
O vosso trabalho é ler. Em seguida, questionar. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Sumários

Aula 1 (4ª 7/10):  

Houve problemas técnicos. Haverá mais. Estamos numa situação anómala. Só ao fim da aula me lembrei de vos dizer para irem ver ao lixo/Spam. Por vezes os problemas parecem complicados, mas as soluções são estupidamente simples.  

Apresentação do programa. Texto a ler para discutir na próxima aula: Comunidade, de Luiz Pacheco

A aula é um smorgasbord ou um tabuleiro servido numa festa por um empregado de casaco brando: croquetes, mini-sandes de pepino, bolachinhas com sucedâneo de caviar. Mas o tabuleiro também pode servir de abóbada, que ao mesmo tempo protege e condiciona. 



A 1º parte do programa é o tabuleiro. As partes 2 e 3 são as amostras módicas. Não espero que se interessem por tudo, mas que da variedade oferecida se interessem por um par de temas. 

Sugestão de leituras para quem se interessar por FC: Dune em breve chega a nova versão do filme, o romance é muito bom; Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, Solaris, de Stanislaw Lem. Três obras-primas.

BD: Watchmen de Alan Moore e Dave Gubbons; Maus de Art Spiegelman.

Etc. Contei em aula a história do aluno que fez um trabalho sobre os dizeres nos T-shirts. E fez uma exposição num estendal aqui no pátio.  

Dada a situação de pandemia, usaremos muito o Youtube para projetar pequenos filmes que ajudem à apreensão da matéria. Espera-se também (suspiro!) que leiam alguma da bibliografia ativa e passiva.   

Textos fílmicos de apoio na aula e/ou em casa: 

Comunidade. (Já ligação acima)

 Cinco poemas concretos

FMI - José Mário Branco


Aula 2 (12/10)

 Leitura em aula do TPC. Discussão. Que problemas/desafios coloca o texto? É um pássaro, um avião?

Jogo: os meus dez livros favoritos. Desses, quais li sem ser por obrigação? 

O marginal Bukowski com ideias «marginais» sobre questões vitais, tipo o amor: mas depois surpreende (e a alguns desilude). 

Solaris - excerto: onde é o futuro?

O sino - excerto

Stalker - excerto


Nem só de filmes da Marvel vive o mundo. A PÃ CIÊNCIA. Importância da pontuação. Estrofe e parágrafo. Centro/margem. Morna/desvio musical. 


Aula 3 (14/10) 

Comunidade - continuação. Como avança e termina o texto? Quem fala? Onde está? Com quem fala?

Poder-se-ia chamar: «O libertino dá um sermão»? 

A «Pã Ciência» - não serve para nada, nem é ciência nem religião nem tecnologia mas 

O júri do Nobel deu-me cabo do ponto 2.9 faz quatro anos. Com que pertinência posso agora dizer que a escrita de canções está na margem quando Bob Dylan ganhou em 2016 a mais consensual, «importante» e canónico das legitimações literárias?  

Não temos de ter todos o mesmo gosto. Não têm de gostar ou sequer entender os textos cuja leitura proponho. Mas é cordial da V. parte darem o benefício da dúvida quando digo que são notáveis (ou mesmo, se for caso disso, obras-primas).  

O próximo («Super flumina Babylonis») é um grande conto. E está nesta antologia: 


 






Notas finais

 Meus caros, aqui estão as notas finais. Sugiro a quem ficou insatisfeito que faça o exame de melhoria - baixar não baixa. Ou comunique comi...