sexta-feira, 23 de outubro de 2020

“Comunidade” de Luiz Pacheco

(comentários e anotações)


Luiz Pacheco é a verdade de que tentamos escapar, é as ‘entranhas da besta’ que consideramos como a ruína, como o fim, como o marginal e menosprezado.

Pois é nessa ruína e fim que parece existir a verdadeira vida, que se sente o espírito livre de Pacheco, que nos retrata, de forma magnífica e única, a verdadeira essência de existir.

Se se poderia, por momentos, considerar que Pacheco é uma ‘não- existência’ literária, devido à grande marginalização e desconhecimento de que é alvo, essencialmente por camadas mais jovens da população portuguesa, “Comunidade” revela-nos cada respiração, cada batimento cardíaco, cada pulsação, que nos mostra que Luiz Pacheco existe. Existe e resiste, existe e prevalece, imortalizando-se na sua escrita, na sua vida, no seu legado.

A frontalidade que escorre da sua experiência pessoal, o tacto, o cheiro, o sabor e todos os sentidos que são despertados ao longo desta leitura, tornam autêntica a sua escrita. Pacheco escreve como sente, como vê, como cheira. Somos testemunhos e espectadores desta autenticidade, num texto cru e visceral até, que se ajusta perfeitamente a quem Luiz Pacheco era, daí a sua honestidade (que pessoalmente tanto preza).

É comum a discussão sobre a forma como Pacheco criou um novo estilo literário, o Neo-Abjecionismo, tornando-se uma espécie de não idealista à sua maneira. Concordo parcialmente com este registo em que tentam colocá-lo, se bem que me parece que o mesmo não fosse gostar de ser colocado em qualquer corrente que na sua escrita se possa identificar, pois Pacheco é, por si só, Luiz Pacheco, não precisando de um rótulo que o coloque numa prateleira de biblioteca com categorização para que os leitores o encontrem melhor.

“Comunidade” é a casa de Luiz Pacheco, o local onde reside o corpo, as ideias e a alma deste ‘escritor maldito’, longe de gerar consensos.

O que se nota nesta obra, e um pouco por toda a vida do autor, é a sua forma de estar sempre à beira da destruição, mas tendo sempre a vontade e a garra de viver, que sempre o fez ressuscitar.

Pacheco é um espirito livre que não pode ser censurado, nesta figura de ‘libertinário’ (libertino e libertário) que nos liberta das conceções comuns da literatura, das amarras do bonitinho da escrita, mostrando-nos a ruína e a miséria de uma vida na verdadeira Lisboa, naquela que não se mostra a turistas.

É isto que o faz ser, sem embelezamentos necessários, Luiz Pacheco.

 

Carolina Chora Alves 

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